Uma criança perde a vez e reclama. Outra quer escolher todas as regras. Duas disputam a mesma peça. Esses momentos fazem parte das brincadeiras e são ótimas oportunidades para aprender a conviver.
O adulto pode ajudar com uma pergunta, um limite claro ou uma sugestão prática. Não precisa interromper o jogo para fazer um discurso: muitas vezes, a próxima rodada já permite experimentar uma atitude diferente.
Na brincadeira, a criança está tranquila e com vontade de participar. É por isso que um valor vivido num jogo costuma ficar muito mais do que um valor apenas explicado.
Escolha um valor para observar
Tentar ensinar muitas coisas ao mesmo tempo pode deixar a brincadeira cansativa. Escolha um foco para aquele encontro.
Em um jogo de memória, por exemplo, o combinado pode ser esperar a vez. Em uma construção com blocos, compartilhar os materiais. Em uma atividade de faz de conta, ouvir as ideias dos colegas.
Esse foco orienta o adulto, mas não precisa virar uma cobrança a cada movimento. As crianças continuam precisando de espaço para imaginar, tentar e se divertir.
Respeito: combinar regras e reconhecer limites
Respeitar envolve ouvir, esperar, cuidar do espaço do outro e aceitar que as pessoas podem ter vontades diferentes.

Antes de começar, faça poucos combinados, em linguagem concreta:
- Cada pessoa terá a sua vez.
- Podemos discordar sem ofender.
- Ninguém precisa aceitar uma brincadeira que machuque ou incomode.
Convide as crianças a participar: “O que precisamos combinar para todos conseguirem brincar?”. Regras que elas ajudam a criar são mais fáceis de cumprir.
Durante um jogo de tabuleiro, se alguém mexer na peça do colega sem pedir, intervenha com clareza: “Essa peça é da Ana. Pergunte antes de mexer.”
Se houver agressão, interrompa a ação e cuide primeiro de quem foi atingido. A conversa sobre o que aconteceu pode ficar para depois, quando as crianças estiverem mais tranquilas.
Para experimentar em casa: antes de uma partida, cada participante sugere um combinado. Escolham dois ou três que todos consigam entender e cumprir.
Cooperação: ter algo para construir juntos
A cooperação aparece quando as crianças precisam combinar ações para alcançar um resultado comum.
Vocês podem montar uma cidade de blocos, criar uma história coletiva ou organizar um cenário de papelão. O desafio é garantir que todos participem, sem deixar uma criança decidir tudo.
Se isso acontecer, ajude a distribuir as oportunidades: “Você já contou a sua ideia. Agora vamos ouvir o que o João pensou.”
Ofereça diferentes formas de contribuir. Uma criança pode desenhar; outra, escolher os materiais; outra, organizar as peças. Os papéis podem mudar ao longo da atividade.
Para experimentar em grupo: proponham construir uma ponte para um carrinho. Antes de testar, cada criança acrescenta uma peça ou dá uma sugestão. Se a ponte cair, o grupo pensa junto no próximo ajuste.
Empatia: perceber e perguntar
Nem sempre conseguimos saber o que alguém sente só de olhar. Por isso, trabalhar a empatia também é aprender a perguntar e a escutar.

Histórias e brincadeiras de faz de conta permitem explorar situações sem apontar para uma criança do grupo. Um boneco ficou sem lugar na casinha? Pergunte:
- “Como ele pode estar se sentindo?”
- “O que poderíamos perguntar a ele?”
- “Como podemos abrir espaço para ele?”
Acolha respostas diferentes. Um personagem pode querer companhia, enquanto outro pode preferir ficar sozinho por um momento.
Em situações reais, não obrigue a criança a abraçar ou a dar um beijo para “fazer as pazes”. Ela pode mostrar cuidado de outras maneiras: buscar ajuda, oferecer um objeto ou perguntar se o colega quer companhia.
Para experimentar com uma história: faça uma pausa quando o personagem tiver um problema. Peça sugestões de ajuda e conversem sobre quais respeitam o que ele deseja.
Responsabilidade: cuidar do que torna a brincadeira possível
Buscar o jogo, conferir as peças, usar os materiais com cuidado e guardá-los no fim são formas concretas de participar da atividade.
Distribua tarefas possíveis para a idade e ofereça ajuda quando necessário: “Você recolhe as cartas e eu organizo a caixa.”
Quando houver um acidente, procurem juntos uma forma de reparar o que aconteceu. Se a água derramou na mesa, vocês podem secá-la juntos. Se uma peça sumiu, podem organizar uma busca.
Evite transformar a arrumação em castigo ou deixar sempre a mesma criança responsável por ela.
Para experimentar em casa ou na sala: antes de brincar, combinem quem ajuda a preparar o espaço. No final, troquem as tarefas para que todos participem do cuidado.
Honestidade e saber perder: jogar limpo
Jogos com regras e com vencedor são um treino seguro para duas coisas difíceis: jogar limpo e lidar com a frustração. Ninguém gosta de perder, e a vontade de “dar um jeitinho” na regra aparece cedo.
Se uma criança trapacear, evite rotular (“você é trapaceiro”). Descreva o que aconteceu e devolva o problema ao grupo: “Você andou duas casas a mais. O que a gente combinou sobre isso?”
Quando ela perder e ficar brava, acolha o sentimento e mantenha o limite: “Perder é chato mesmo. Você pode ficar chateado, mas vamos guardar as peças sem jogar.” Depois, ajude a encontrar uma saída: respirar, beber água ou pedir uma revanche.
Saber ganhar também se aprende. Comemorar sem zombar de quem perdeu e cumprimentar o colega no fim da partida são gestos que valem tanto quanto a vitória.
Para experimentar em casa: no fim de cada partida, todos dizem “Bom jogo!” e contam uma jogada boa de outro participante.
Como intervir sem transformar tudo em sermão
Use frases curtas e ligadas à situação.
| Em vez de dizer | Experimente |
|---|---|
| “Você precisa aprender a dividir.” | “Os dois querem o lápis azul. Como podemos organizar o uso?” |
| “Pare de ficar bravo.” | “Você queria ganhar. Pode ficar chateado, mas não pode jogar as peças nos outros.” |
| “Muito bem, você é o mais bonzinho!” | “Você esperou a colega terminar de falar.” |
Reconhecer ações específicas ajuda a criança a perceber o que fez, sem comparações e sem rótulos como “o mais bonzinho da turma”.
Observe também o seu próprio comportamento. Quando o adulto perde, erra uma regra ou precisa esperar, tem a chance de mostrar na prática aquilo que está propondo. As crianças aprendem muito mais com o que veem do que com o que ouvem.
E nas aulas de evangelização infantil?
Uma brincadeira pode se ligar a uma história de Jesus ou ao tema do encontro. A ligação pode surgir numa conversa breve, depois do jogo.
Depois de contar a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), por exemplo, dá para perguntar: “Na história, alguém precisou de ajuda. Em que momento do nosso jogo também precisamos uns dos outros?”
Assim a criança percebe que os valores não são só regras de bom comportamento. São jeitos de amar o próximo, como Jesus ensinou.
Evite classificar as crianças como boas ou más pelo resultado da atividade. Uma dificuldade durante a brincadeira não define quem ela é.
Pequenas atitudes, rodada após rodada
Na família, na escola ou na evangelização, vale terminar a brincadeira com uma pergunta concreta: “O que ajudou a nossa brincadeira a funcionar hoje?”
A resposta pode ser pequena: esperar, ouvir, emprestar, tentar de novo. Na próxima oportunidade, essas atitudes poderão ser praticadas mais uma vez, até virarem hábito.
Se você quer um ponto de partida, a Brincar Transforma tem materiais pensados para isso:
- Dominó das Boas Atitudes: 28 peças em que cada atitude que entristece se encaixa na atitude que “conserta” a atitude infeliz. Leia o artigo sobre o jogo.
- Álbum de Figurinhas Pai-Nosso: a criança descobre o significado de cada trecho da oração enquanto completa o álbum. Leia o artigo sobre o álbum.
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